

Diferente do ano passado, esse ano não teve árvore de natal aqui em casa. Por 2 motivos: falta de tempo e trauma. Trauma porque no ano passado montamos uma árvore grande linda e natural, que deu muito, muito bicho. Foi um horror! Mas mesmo sem árvore, a casa tá cheia de presentes espalhados por aí. Esses 2 são meus! Chegaram ontem e eu eu tô morrendo de curiosidade. O Rafa já queria trocar os presentes ontem mesmo, o que prova que ele é mais ansioso que eu. Teve um ano que nós não aguentamos e trocamos no dia 23. Fizemos uma ceia improvisada no meu apê em SP e pronto. Mas esse ano vou me controlar e esperar até meia-noite. Enquanto isso eu vou de tempo em tempo dar uma chacoalhada no pacote, ver se é pesado, se eu adivinho o que é. Ainda não tenho nenhum palpite. Ai.
Perto do meu trabalho tem uma lojinha de produtos brasileiros. Já descobri também uma padaria que tem pão de queijo, um restaurante que tem croquete de carne quente e um bom lugar de feijoada. Mas pastel nem pensar! Não existe aqui. Já ouvi dizer que tinha o tal "pastel brasileiro" num lugar em Cascais. Fui lá e saí deprimida. Não tinha nada a ver.
Um dos charmes do Rio de Janeiro é a quantidade de livrarias de rua. Já em São Paulo, as megastores mataram as livrarias pequenas. E eu acho isso uma pena. Quando cheguei em Lisboa logo reparei na quantidade de livrarias de bairro. Tem uma em cada esquina. Eu ADORO. Posso contar nos dedos quantas vezes entrei na Fnac daqui pra comprar livro. Eu evito. Gosto da Bertrand, da Ferin e das desconhecidas pequenininhas. Mas há menos de 1 ano, abriu a entitulada "maior livraria do país", a Byblos. Uma loja com 3.300 metros quadrados que, como a Fnac, vendia além de livros, DVDs, CDs, jogos, tudo. Um saco. Nunca me dei ao trabalho de entrar. Mas pensei que eu era uma das poucas pessoas que não iam lá, até saber que há um mês, mais ou menos, a livraria faliu! Fiquei em choque. Mas conversando com as pessoas, percebi que ninguém comprava lá. E isso, de certa forma, preserva todas as livrarias de ruas, ainda bem. Porque se fosse em São Paulo, as livrarias ao redor da megastore teriam fechado as portas. E a Byblos lá, seria um exemplo de sucesso.
Pronto! O frio chegou, de novo! E este ano não quero ficar mal humorada como no ano passado. O frio no começo é sempre bom. Tem aquela coisa de tirar a bota do armário, o cachecol, tomar muito vinho tinto, chocolate quente. Só que depois que você percebe que o frio não passa a raiva se instala e tudo é motivo pra reclamar: a mão que congela no caminho do trabalho, a água do chuveiro que nunca é quente o suficiente, a roupa que te faz sentir 5kgs mais gorda. Mas decidi não me entregar ao mau humor. Vou fazer um exercício: postar qualquer coisa que me lembre das vantagens de se estar aqui.
Continuando o post de coisas que eu não entendo por aqui.
Eu ainda não conheço Alcobaça. É o lugar onde estão sepultados D. Pedro e Inês de Castro. A história deles é a coisa mais linda. E triste. D. Pedro se casou por questões políticas com D. Constança que tinha como dama de companhia Inês de Castro. Quando D. Constança morreu, D. Pedro, apaixonado, foi viver com Inês. Mas o rei D. Afonso IV, pai de D. Pedro, não gostou nada da história e mandou matar Inês. Quando D. Afonso morreu, D. Pedro mandou matar os assassinos de Inês, desenterrou a amada e corou-a rainha.
A Mô descobriu uma escola de yoga do lado da nossa casa. Na época ela estava fechada para férias. Ficou assim durante 1 mês e meio. Quando reabriu, descobrimos que o horário da primeira aula era só às 9h da manhã. A Mô perguntou para a professora/dona se era possível ela dar uma aula mais cedo. E descobrimos que não era possível. Nem se arranjássemos uma turma nova para fazer nesse horário. A mulher simplemente não quer acordar mais cedo. Não importa quantas pessoas interessadas nesse horário aparecer. Não fez muito sentido isso pra mim. Por que raio a mulher não quer ganhar mais dinheiro? Mas depois, pensando, dei razão a ela. A vida dela vem primeiro, o horário confortável é esse. E nada de passar por cima disso por dinheiro nenhum. É o menos por mais. Trabalhar menos, ganhar menos, mas viver melhor. E ponto. Isso tem um lado negativo, porque vejo muito disso aqui. Economicamente falando, as coisas são meio estagnadas. Parece que não prosperam. Por exemplo, a maioria do comércio fecha mesmo na hora do almoço. Domingo, na Rua Augusta, a rua comercial mais turística daqui, não abre nada. Fica cheio de turistas lá, andando de um lado para o outro, com todas as lojas fechadas. É meio absurdo. Mas, por outro lado, acho que os portugueses precisam bem menos de terapia.
Desde que vim pra cá perdi 3 casamentos de amigonas minhas. 3! Passei 28 anos no Brasil e não vi nenhuma amiga minha entrando de branco numa igreja. Parece que foi só eu vir, pra galera desencalhar. Com 2 delas consegui ao menos participar da lua-de-mel. O que foi um privilégio! Elas esticaram a viagem aqui pra Lisboa.
As vezes os portugueses podem ser um pouco sem tato. Ou maldosos mesmo. Tipo criança, sabe? Que é sincera demais. E não é por mal, tem um quê de inocência. Eu vivi isso há um mês atrás, quando no meio da viagem dos vinhos com a Alice, tive uma alergia do além. Acordei no hotel de madrugada com o rosto coçando. Fui ver no espelho e estava toda inchada. Imagine eu, que sou zoiuda, com umas 3 dobras a mais nas pálpebras. E uma boca de negão. Eu e a Alice pegamos o carro, colocamos no gps o endereço do hospital que nos deram e fomos. Fomos para a cidade errada. O gps nos levou na rua certa, mas em outra cidade. 20kms depois, aí sim chegando no hospital, comecei falar pra Alice “Estou me sentindo melhor, sabe, Alice? Acho que não é nada.” Na verdade, eu queria acreditar nisso, já que o desespero estava começando a tomar conta de mim. Quase consegui me acalmar, quando uma pessoa da triagem do hospital me chama. E faz a seguinte pergunta:
Sábado foi o dia de celebrar a música com concertos em várias praças da cidade. Nós saimos para tomar um café da manhã e acabamos assistindo a orquestra em frente ao Teatro São Carlos. Depois ainda fomos para outra praça ouvir um "piano a 4 mãos". Podíamos passar o dia todo ali, indo de um lugar para outro. A programação era intensa e para todos os gostos. Orquestra, coro, violino, piano, tudo. Adorei isso, música clássica para todo mundo.
Tô apaixonada. Abriu uma loja muito fofa aqui perto de casa. Sabe aquela lojinha que você entra e vê que é o sonho de alguém realizado. Aparentemente o target são as crianças, mas é de fazer qualquer um que goste de desenho passar mal. Eu passei! A loja é de uma arquiteta, que morou uns anos no Japão e voltou pra abrir um negócio de brinquedos educativos. O espaço é lindo, com uma vitrola antiga, com cada detalhe pensado. Está cheio de origamis (o Rafa que dobrou o da foto) e livros educativos. Um livro que adorei é o que está aí em cima. Ele é todo impresso em acetato, uns 40 acetatos, cada um com uma ilustração. E a idéia é ir montando uma história conforme a ordem que você inventar para os acetatos. É de morrer de lindo. Perfeito para estimular a mente de crianças como eu.
Não sei o que tem acontecido comigo desse lado do oceano. Talvez seja a aproximação dos meus 30 anos. Juro que não sei o que aconteceu, mas ando me transformando nesse monstro aí de cima alguns dias por mês. E o problema de ficar de tpm aqui, é que, ao invés de culpar os hormônios pelo mau humor, eu culpo Portugal. Sim, porque de repente aparecem todos os motivos para querer fazer a mala e ir embora. São as pedras das calçadas que me fazem tropeçar e virar o pé várias vezes por dia, são as tascas que só tem o mesmo cardápio, é a cachorra da agência que não pára de latir, é o elevador do meu prédio que vive dando tranco. Nesses dias, todas essas coisas estúpidas são capazes de me fazer chorar. Mas tem uma coisa que ainda não descobri se é da tpm ou não. Assistir o Jornal Nacional tem me deixado muito emotiva. Ontem mesmo segurei pra não chorar na frente do Rafa. É ridículo. Nem precisa ser uma notícia de violência. Basta ser sobre uma fraude numa ONG qualquer, que aliás foi a notícia de ontem. Isso já é suficiente para algumas lágrimas escorrerem. O que tá acontecendo comigo? A Flá, minha amiga, sempre me alertou sobre os 30. Mas peraí, achei que eu fosse virar qualquer coisa, uma louca, uma depravada, uma intelectual, sei lá. Mas uma chorona? Que lama.
Essas fotos foram das herdades mais "comerciais". A primeira foi na herdade do Esporão onde fizemos a prova de vinhos monocasta. Provamos touriga nacional, alicante bouchet, aragonês, trincadeira, sirah e mais uma que não lembro agora. Esse é o melhor jeito para descobrir qual é o seu tipo de vinho.
Sem saber, acabamos indo visitar as herdades na época de vindima. Que é a época da colheita das uvas. Foi ótimo porque conseguimos ver todo o processo de produção que estava acontecendo. Os baldes das colheitas, a separação das uvas boas e a passagem para os tonéis de fermentação. Mas o melhor foi poder colher cada tipo de uva no pé e perceber a cor, formato e gosto diferente. A da foto de baixo é uma Alicante Bouchet. E ela já é vermelha dentro, parece até que já escorre vinho.
O que me fez gostar mais de uma herdade do que da outra foi o toque familiar. Quando chegávamos num lugar e não éramos recebidas por uma mulher uniformizada, já sabíamos que ia ser legal. Pois os grandes produtores já fizeram do enoturismo um negócio chato. Por exemplo, nos grandes, você só pode provar 2 tipos de vinhos. E eles são sempre os rótulos mais baratos da casa. Ou seja, aqueles que você está careca de conhecer nas tascas e supermercados. Provar um reserva, nem pensar. A monitora uniformizada fala como uma gravação e é tudo muito impessoal. Já nas herdades menores, acontece o contrário. Lá se tem uma verdadeira aula de vinhos, sem hora para acabar. As melhores garrrafas são abertas sem dó. E sempre tem visita pela propriedade com jipes e com paradas nas videiras para provar cada uva. Muitos desses passeios nem são cobrados.
Com quem mais eu poderia fazer uma rota dos vinhos? Há 8 anos atrás, quando vim pela primeira vez para Portugal, não gostava e nem entendia nada de vinho. E a minha companheira de viagem, Alice, já era uma viciada. E quando, 30 dias depois voltamos ao Brasil eu já era um caso perdido. Com o tempo, gosto mais e mais de vinho. Então, fazer a rota dos vinhos com a minha "mestre" só poderia ser perfeito!
Fomos assistir a ópera "Tosca". Além do espetáculo, o local era especial: à céu aberto nas muralhas de Óbidos. Um amigo do trabalho me alertou sobre o frio que poderia fazer. A apresentação iria até às 2 da madrugada. Então, o Rafa pegou uma blusa de lã e eu peguei um casaco bem grosso. Assim que chegamos no local, vimos algumas pessoas vestidas para temperaturas negativas. Nós achamos ridículo, afinal era um festival de ópera no verão. Mas aí começou a ventar. Muito. Entendemos o porque de uma banquinha vendendo "cobertor" na entrada. Tinha fila no lugar e o preço do cobertor inflacionou para o mesmo preço do espetáculo! Nós não resistimos e fomos lá correndo buscar o nosso cobertorzinho, que diga-se de passagem, não foi suficiente. Durante o intervalo dos 3 atos, todos corriam para tomar ginginha e se esquentar. A ópera era bem dramática. Daquelas que se assiste o tempo todo com uma cara de sofrimento. Mas em especial, nesse dia, acho que as pessoas estavam com essa cara não por causa de Tosca.
Eu sempre amei tomar café-da-manhã com calma. Simplesmente não suporto a idéia de acordar, tomar banho voando e ir pro trabalho de estômago vazio. Prefiro ter menos horas de sono, levantar mais cedo e ficar no mínimo meia hora saboreando a melhor refeição do dia. Meu namorado acha um absurdo a fome que eu tenho de manhã. Mas minha mãe sabia como tirar proveito disso. Em épocas que eu era mais preguiçosa, ela colocava um pãozinho na chapa, fazia café e assim que o cheiro chegava no meu quarto, eu descia rapidinho. Meu olho mal tinha aberto, mas meu estômago acordava na hora. E agora que não tenho mais o “despertador” da minha mãe, levanto todos os dias com um coração de café à minha espera. Não dá mesmo pra acordar de mau humor!
Todo mundo que vem nos visitar pergunta: "Onde posso comer o melhor bacalhau?". Segue a partir daí um silêncio tenso. Nós (e isso inclui a Mô, a Lu, algumas pessoas que trabalham comigo e inclusive meu redator português) não sabemos onde tem o melhor bacalhau. Principalmente se for aquele tradicional, numa tasca portuguesa. Todas as vezes que fiz essa pergunta a um português ouvi: "Na minha casa tem o melhor bacalhau". Ou seja, essa é uma pergunta difícil. E se levar em conta que quem vem nos visitar já comeu pelo menos uma vez no Espírito Santo em São paulo, aí a coisa fica mais difícil ainda. Lá eu comi o melhor bacalhau da vida. E não esbarrei em um assim por aqui. Mas se falarmos de um bacalhau mais inventado, tipo carpaccio de bacalhau, mil folhas de bacalhau, aí sim, posso pensar em alguns lugares por aqui. Mas isso não quer dizer que as tentativas não ocorram. Quando vem alguém, sempre tentamos um lugar novo. Com a minha tia fomos numa tasca, com a Pati em outra, com o Batata em outra ainda e assim vai. Até a melhor tasca daqui não me convenceu. Mas não desisto. Espero que antes de ir embora aconteça umas das 2 coisas: que eu encontre o tal bacalhau ou que o Espírito Santo abra uma filial aqui.
Sabe quando você conhece uma pessoa e naquele exato momento sabe que ela é especial? Foi isso que senti a primeira vez que conheci um senhor português, padrasto de um amigo nosso. Um homem culto, calmo e que eu tinha vontade de ficar dias inteiros conversando. Sem nem me dar conta, comecei contar para ele coisas profundas e íntimas no dia que nos conhecemos. E foi assim no meio da conversa, que ele me indicou um livro para ler. O diário de Etty Hillesum.
Acho que envelhecer aqui em Portugal não deve ser ruim não. Tem várias vantagens em ser maioria num país. Se no Brasil, idoso tem desconto em passe de ônibus, aqui tem desconto em pousadas de luxo. Toda vez que entro num site de hotel me deparo com o preço ninharia do “Golden Age”. Mas fora isso, a minha vizinha terceira idade do prédio tem uma vida muito mais agitada e interessante. Se a minha semana consiste em trabalho-casa-trabalho, a dela nem pensar! Idas à praia em plena segundona com a turma da mesma faixa etária é de praxe. Fora as atividades como aulas de computação na rua de baixo ou natação que ela faz diariamente. Tudo baratiiinho ou de graça. E sem contar que os idosos aqui geralmente herdam aqueles contratos de aluguéis antigos que já contei no blog. Ou seja, o aluguel é meio de graça também. Mas tudo isso pra falar que esse fim de semana foi feriado prolongado. Encontrei a minha vizinha e ela me perguntou o que eu fiz nesses dias. Respondi um nada especial, só uma prainha aqui perto. E aí fiz a pergunta que ela tanto queria: E a senhora? E ela passou a meia hora seguinte descrevendo o feriado dela em Marrocos, com direito a uma noite dormida no deserto com encantadores de serpente e dança do ventre.
O Rafa veio morar em Lisboa para ter uma vida mais parecida com a que ele tinha no Rio. E aí o que a gente tem feito aqui é uma mistura de Rio-São Paulo. Principalmente no verão. Nessa época, nosso fim de semana se resume em ir pra alguma praia que tenha onda e de preferência que a gente ainda não conheça. A oferta de praia paradisíaca com até 2 horas de carro de Lisboa é ABSURDA. Aliás o Rafa sempre se pergunta porque Portugal nunca foi vendido pra turista como um destino de praia e calor. Tirando os espanhóis e franceses, não acredito que tenha muita gente por aí associando Portugal à férias na praia. Mas voltando ao assunto, essa é a parte Rio de Janeiro do nosso fim de semana
Este é o país que quase não tem notícias nos telejornais. E aí ontem, o país pára para assistir 8 horas de negociações com bandidos que assaltaram um banco em Lisboa fazendo alguns reféns. Detalhe: os assaltantes eram brasileiros! É lastimável quando isso acontece no nosso país, mas ainda é pior quando um imigrante faz uma merda dessa no país dos outros, dando razão aquele estereótipo de brasileiro ladrão. Mais do que assaltar o banco, ele prejudicou os quase 250 mil brasileiros que vivem aqui. E fez com que aquelas pessoas pequenas que pensam que brasileiro é ladrão e brasileira é puta pudessem hoje se sentir os donos da verdade. Fiquei bem revoltada com isso.
Neste fim de semana fomos para Zambujeira do Mar de novo. Estava uns 37º. Desde que o verão começou não me lembro de um dia tão quente na praia. Justo desta vez esquecemos de levar água. E aqui quase não existe o vendedor ambulante. As vezes até passa alguém vendendo um sorvete, mas é tão raro que não dá pra contar com isso. E como fomos numa praia mais deserta, nem bar perto tinha. Acabamos então, ficando sem água mesmo. Mas depois de umas 2 horas ouvi alguém passando com uma cestinha vendendo algo. Logo pensei, oba, água! Mas a vendedora chegou no meu guarda sol e me ofereceu um copinho pequeno, vi que era café! Café, naquele calor. Não, não tinha uma gota de água pra vender, nada de chá gelado, nada refrescante. Só café quentinho nas duas cafeteiras. Fiquei passada! Me deu até mais calor e sede só de olhar.
Em determinadas épocas aparecem programações de espetáculos dentro de monumentos ou museus. Não é tão divulgado, então se bobear, passa e você nem fica sabendo. No ano passado perdi o festival Óperas nos Monumentos. Houveram apresentações no Castelo de São Jorge e até no Mosteiro dos Jerônimos. Mas esse ano estou ligada. Ontem fomos numa peça que contava a vida do padre Antonio Vieira. Foi dentro das ruínas do Carmo (foto de baixo). Eu, por acaso, gostei da peça, mesmo tendo 2 pessoas dormindo do meu lado. O Rafa e uma velhinha. Mas pro Rafa também valeu a pena: pagou o preço que é cobrado só pra entrar nas ruínas vazias e ainda de lambuja viu (por alguns instantes) o espetáculo. A foto de cima foi numa apresentação da orquestra dentro do Museu dos Coches. Acho a combinação perfeita: arte e história.
Tenho achado cada vez mais importante tirar as idéias do papel. Nem que seja pra ver que não funciona. Mas sempre fui muito indecisa, penso, penso e acabo não fazendo muita coisa. E essa idéia de um novo blog vem dessa fase de querer fazer. Nunca levei jeito pra desenhar, nunca fotografei muito, nunca cozinhei. E aqui comecei a arriscar fazer um pouco de tudo isso. Acho que é o tempo, a calma dos ares portugueses. Tenho tempo pra pensar aqui. Penso no caminho de casa pro trabalho, penso nos sábados de manhã, em várias noites que passo à toa olhando pra lua. E que lua! Acho que antes eu tava tão preocupada em correr, ganhar grana, que não tinha tempo pra mim. Dei espaço pro ócio criativo.
“É uma estupidez não ter esperança,” pensou. “Além disso, acho que é um pecado perder a esperança. Mas não devo pensar em pecados. Já tenho muitos problemas para começar a pensar em pecados. Para dizer a verdade também não compreendo bem o que são os pecados. Não os compreendo nem sei bem se acredito neles. Talvez fosse um pecado ter matado o peixe. Suponho que sim, embora a carne fosse para me conservar a vida e para alimentar muita gente. Mas então tudo é pecado. Não pense no pecado, meu velho. É demasiado tarde para isso e há pessoas cujo ofício é esse. Deixe que sejam eles a pensar nos pecados. Você nasceu para ser um pescador tal como o peixe nasceu para ser peixe."
Não é preciso se esforçar muito para ver prédios caindo aos pedaços aqui em Lisboa. São muitos. E não é uma questão de zona boa ou zona ruim, pobre ou rica. Tem em todo lado. Aqui em frente de casa tem um. O cano já está para fora, as janelas mal fecham, mas todos os apartamentos estão ocupados. Fui descobrir o motivo disso. Os contratos de aluguéis antigos privilegiavam sempre o inquilino. Então, uma pessoa que há 5o anos atrás alugou um apartamento por alguns escudos, paga hoje uma merreca. O aluguel não acompanhou a inflação, a mudança de moeda, nada. E como, nestes contratos antigos, o inquilino só sai quando quer (ou no caso, quando morre) o dono do prédio larga a manutenção por falta de dinheiro. Aqui no meu prédio, onde eu pago 750 euros, uma senhora paga 47 euros. Ela está aqui no prédio há mais de 40 anos. Meu prédio tem 6 apartamentos e 2 estão nesse esquema. Mas alguns estão inteiros assim. É uma questão delicada. Dá para entender a lei que protege o inquilino. Hoje em dia, estes velhinhos nem conseguiriam pagar o preço de um aluguel "normal". Mas por outro lado, imagine ter um imóvel num lugar ótimo e não fazer nada de dinheiro com ele. Meio mórbido ter que esperar alguém morrer para finalmente poder lucrar alguma coisa.