Feliz aniversário, amor.
Existem alguns pratos de restaurante que parecem simples, mas não adianta tentar fazê-los em casa. Eles tem algum segredo que só o chef sabe. O molho da salada do La Tartine parece a coisa mais básica do mundo, mas nem tente fazer esse molhinho de mostarda. Eu já tentei e não fica nunca tão bom. Outra receita que eu já testei: o bife à milanesa com creme de espinafre do Ritz. Só lá tem aquele sabor. Mas agora passei para a fase cara de pau de perguntar para os chefs como se faz. Até agora tive sorte. No restaurante Charcutaria aqui perto de casa, o cozinheiro me explicou direitinho como fazer o bacalhau com broa e couve que eu amo. E no sábado agora, o chef do Flor de Sal puxou papo comigo e com o Rafa. Pra que? Lá fui eu perguntar como ele fazia pra deixar o alho poró crocante em cima do risoto de pato. Aliás o melhor que eu já comi aqui. O chef foi tão simpático que escreveu toda a receita na fatura, incluindo como se faz a redução de vinho tinto que ele também coloca no prato. Ou eu tive muita sorte ou essa coisa de segredo de chef anda meio fora de moda por aqui.
Não sei se é verdade que por trás de todo grande homem existe uma grande mulher. Mas é verdade que por trás de todo homem sensível e atencioso existe sim uma mulher. Há algum tempo que faço com o Rafa o mesmo que via minha mãe fazendo com o meu pai: passo os dias lembrando ele dos compromissos com outras pessoas. Não qualquer compromisso, mas aquelas pequenas coisas que a cabeça do homem simplesmente não processa. Exemplos: aniversário da irmã, ligar para a avó no Natal, comprar presente de casamento e avisar antes quando não vai poder ir, ligar para algum amigo que esteve doente, retribuir convites, etc. As vezes me pergunto como eram essas coisas antes de eu me tornar a mulher-lembrete? Será que as pessoas ficavam magoadas e achavam que o Rafa fazia pouco caso ou que era só esquecido e ponto? Talvez a mãe dele fizesse esse papel que eu faço agora.
Ontem fui filmar um trabalho com 2 meninos gêmeos que uma agência de casting nos enviou. Passamos o dia filmando em vários lugares. E durante essas 7 horas pude conhecer um pouco da vida de um alentejano. Ou melhor de 2. Eles tem 19 anos e moram numa cidadezinha no Alentejo há 2 horas de Lisboa. Me contaram que onde moram não tem balada, nada. É preciso vir para Lisboa quando querem sair. E como ontem era sexta, logo perguntei se eles iriam ficar por aqui. Nem pensar. Hoje, sábado, a partir das 7 da manhã eles iram estar trabalhando. Colhendo azeitona. Segundo eles: o pior tipo de colheita. Quando me mostraram as mãos, vi que eram cortadas e completamente marcadas. A época da colheita é feita nos 3 meses de inverno, durante 8 horas, com uma pausa de 1 hora pro almoço. 6 dias por semana. Fiquei passada de ver aqueles meninos como trabalhadores do campo. E aí perguntei o que eles faziam nos outros meses do ano. Trabalham numa barragem, como pedreiros. E isso ou comércio são os únicos empregos daquela cidade onde moram. É muito louco pensar em Lisboa como a cidade grande, a cidade das oportunidades para essas pessoas. E quem não tem dinheiro pra bancar uma vida de estudos aqui, não tem muito futuro mesmo. Ou, no caso dos gêmeos, a única alternativa de melhorar de vida é mesmo namorando a filha do produtor de azeite da região. Coisa que um deles fazia.
Na virada do ano todo mundo faz balanços e principalmente pedidos. Sempre fui uma pessoa indecisa. Me lembro de pular as 7 ondas e não saber nunca que pedido fazer. Não conseguia decidir por um único desejo ou as vezes não conseguia lembrar de nenhum em cima da hora. E nesse ano me dei conta que essa minha indecisão atrapalha a minha vida. Sou tão indecisa que as vezes vou só levando a vida e pronto. E de repente me vejo insatisfeita com um monte de coisa que tá acontecendo e que eu nem sequer escolhi. Esse é o problema de quem nao escolhe: é escolhido. Esse ano eu só quero uma coisa: decidir. Aprender a escolher e mais que tudo: saber o que eu quero.

Passamos 4 dias em Sagres, que fica bem na pontinha do mapa. Conhecemos várias praias da região e apesar do frio, teve 2 dias lindos de sol. Ontem demoramos 7 horas para chegar em Lisboa, mas não por causa do congestionamento (inexistente), mas porque viemos parando em várias praias da Costa Vicentina. O melhor foi quando paramos em Aljezur, uma cidadezinha linda perto de Zambujeira do Mar. Seguimos com o carro as ruínas do castelo até que percebemos que a rua não tinha saída. Uma velhinha sentada numa cadeira na calçada começou a gesticular e berrar pra gente dar a volta com o carro. O Rafa virou o carro e sem perceber colocou ele a alguns centímetros de um buraco enorme. Ficamos presos lá, sem conseguir dar ré ou ir para frente. Por causa das pedras molhadas da rua, o carro derrapava e corria o risco de cair no buraco. Uns moleques da rua vieram nos ajudar, só que a velha, pelo contrário, não parava de resmungar um só minuto. Os meninos só gritavam: